terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Enfrentando a folha em branco


Primeiro quero agradecer a todos que visitaram o blog. Como vocês puderam notar o layout do blog mudou um pouco e pode-se dizer influenciado pelo blog do João Nunes, no qual eu li um texto muito bom sobre os primeiros roteiros, basicamente ele fala sobre que devemos expurgar de nós os nossos primeiros trabalhos para que possamos escrever bons roteiros no futuro. Isso também me lembrou de uma grande lição que tive com o professor Paulo Munhoz, que disse em uma de suas aulas de animação, “um desenhistas deve gastar mais de 1000 desenhos ruins para começar a desenhar bem”, na verdade era a citação de alguém, mas não lembro quem.


Assim é como me sinto, como uma criança aprendendo a escrever, repetindo incessantemente a mesma palavra para descobrir a sua sílaba tônica, quando usamos vírgula e quando usamos ponto, relembrando a todo o momento as regrinhas para acentuar corretamente as palavras.

Um segundo texto do blog do João Nunes fala sobre o primeiro tratamento do roteiro, ou o que chamam de “vomit draft” onde se deve deixar a criança interior de cada um falar, sem se preocupar com nada, pois esse momento é apenas do escritor e com certeza não importa os caminhos que essa criança tome algo vai se aproveitar.


E é por ai que eu vou começar hoje.


O maior terror de qualquer escritor é sem duvida encarar o papel em branco, a sua cabeça está cheia, a idéia que pulsa na sua cabeça, mas como passar essa idéia para o papel. São cenas, diálogos, personagens, ações, tudo vindo de uma vez.


Muitas pessoas começam com página 1 cena 1, INT. CASA – DIA. E assim seguem por 10, 20 páginas até exaustos pararem de escrever, relerem o que fizeram e perceber que nada faz muito sentido, que os diálogos não podem ser ditos por um ator, que os cenários não tem portas. E então voltam, colocam a cabeça no lugar e recomeçam, com página um, cena 1, INT. CASA – DIA, reaproveitando algumas coisas jogando fora outras, e com muitas idéia perdidas no meio daquelas páginas. É um método comum e muitas vezes funciona.


Algumas pessoas começam a desenvolver um texto, um “pré-argumento” onde e assim escrevem páginas e mais páginas onde a quantidade cria a qualidade, outros desenham, criam a planta baixa do cenario, outros falam com um gravador, descrevem personagens, escrevem cenas completas.


Todas essas formas são validas e bastante utilizadas. Porém autores tentam colocar um processo de trabalho, praticamente receitas. Coloco o processo que aprendi com Doc Comparato em suas aulas de roteiro. Passo a passo.

  • 5 linhas de Storyline que definam o conflito central da estória.
  • 1 pagina de sinopse onde você cita os personagens e conflitos da estória.
  • 10 a 15 páginas de argumento contando imageticamente sua história.
  • 60 a 100 cenas, faça uma escaleta separe o argumento em cenas e as coloque em ordem.
  • 90 a 120 páginas de ação, personagens, diálogos e rubricas e termine seu roteiro.


Parece ótimo e realmente funciona, mas não é tão simples assim. Seguir esse processo muitas vezes é como tentar passar uma manada de búfalos por um canudo.


Quando se tem uma idéia e se quer criar uma estória a partir dela é necessário criar um novo mundo, um mundo especifico e único, onde vivem os seus personagens, onde eles moram e o que eles fazem. Como autor é necessário controlar cada centímetro desse mundo e para isso é necessário conhecê-lo como ninguém.


O processo de por as primeiras idéias no papel é único para cada escritor, não cabe regras ou fórmulas. Esse é o momento em que o autor escreve para si, para que ele possa ler o que escreveu e assim desenvolver a sua estória.


No roteiro Desaparecidos no Silêncio foi necessário colocar as idéias no papel de forma jogada, o que me vinha à cabeça eu escrevia. Depois senti a necessidade de conhecer meus personagens, quem eles eram, tentei começar um argumento, mas parei, senti a necessidade de fazer uma escaleta e a fiz. Originalmente o roteiro era para ser de curta-metragem, mas no final da minha primeira escaleta eu já tinha mais de 30 cenas e então percebi que havia material para um longa-metragem.


No momento em que você colocou todas as suas idéias no papel e passou a conhecer um pouco mais sobre o mundo que você criou é muito válido voltar a receita, seja ela qual for, Doc, Syd, Bob, não importa, agora a questão é se organizar, juntar as idéias que estavam soltas em um papel e colocá-las em ordem para que você as compreenda, as desenvolva e conheça o mundo que você criou.


Aqui algumas imagens das primeiras notas do roteiro.


Obrigado a todos que estão seguindo o blog, comentem e vamos aprendendo juntos.

9 comentários:

diegocinema disse...

Realmente o primeiro grande desafio é começar a escrever.Há algum tempo eu não escrevo um roteiro(a última vez faz uns seis meses para um edital aqui da facul que infelizmente perdi,o que me desanimou um pouco).As idéias pululam mas passa-lás para o papel é díficil por vários motivos(a preguiça,o medo de não conseguir,a insegurança).Geralmente eu não faço escaletas,argumento,nada disso.Faço como você fez,rabiscos,idéias jogadas no papel e parto para o roteiro direto.E me vejo agora lutando para escrever um argumento.Fico imaginando se a linguagem esta pobre,se só eu estou entendendo,como passar um narração em off para um linguagem literária,enfim,várias questões se apresentam a mim dia a dia.Enfim,parabéns pelo blog,ele está excelente e boa srte para a gente com nossas histórias!

A M Lacerda disse...

Quando me detenho em uma idéia para um roteiro, costumo passar dias com esta idéia na cabeça lendo livros e mais livros sobre o assunto. Quando os personagens começam a falar - quase sempre frases soltas que dizem bem que tipo de pessoa aquele(a) personagem é -, é quando sento pra começar a escrever meu roteiro. Não há escaletas, seuqer argumento, mas todo cuidado em saber bem do que estou tratando, isso eu escrevo e deixo sempre à vista.

marcelo disse...

Olá blogueiros!
Tive a idéia para um longa, transformei numa Story Line, depois expandi uma sinopse e, acabei a dois dias atrás o perfil dos personagens. Mas, o mais engraçado é que hoje, estou tentando montar a escaleta e ainda não consegui sai da página em branco. Resumindo, travei! O que devo fazer agora?

Cipriano Wiski disse...

Marcelo, você tem prazo para entregar? Se não, talvez seja um bom momento para dar uma parada.

O processo de se criar uma escaleta não é simples. Esse é o momento em que você para de ver a estória apenas como uma estória e começa a visualizar o filme que vai ser feito a partir dela. É o momento de dividir tudo em cenas, notar ritimo, andamento, furos na narrativa.

Então se você travou aproveite o tempo para rever tudo o que você fez e imaginar como que vai ser o filme que será feito apartir do seu roteiro.

Também é momento de ver filmes que te inspire e tentar estudar e compreender a sua estrutura, onde se dividem os atos, como se criam as sequencias até contar o número de cenas do filme.

Ma não se preocupe no processo é natural ter travadas e elas normalmente são tempos necessarios para você encontrar o caminho para os proximos passos.

Cipriano Wiski disse...

citando McKee. "a única maneira de vencer um bloqueio é com uma viajem... até a biblioteca."

marcelo disse...

Cipriano, não tem prazo, não. Estou escrevendo por conta própria. Na verdade, eu tinha uma estória visualizada, porém quando desenvolvi o perfil das personagens, elas acabaram arrebentando com a estrutura que eu tinha especulado. Tinha um clímax que em minha opinião, era um baita clichê! Travei porque tenho que começar do zero novamente, digo a respeito da escaleta.

Já fiz o desenho de estrutura dividindo em três atos, com Incidente Incitante, com o primeiro Ponto de virada, Cena Obrigatória do segundo Ato, com segundo Ponto de Virada do segundo Ato e o Clímax da estória que infelizmente ainda não tenho. Fora que tenho cinco desfechos diferentes para a mesma estória e ainda não decidi qual escolher. Enfim, é como você mesmo falou: “é momento de ver filmes”. Porém, ir à biblioteca nem pensar! Já estou cheio de material para dá a largada nessa corrida maluca! Ou deito na cama e penso só em imagem, ou vou ter que tomar um chá de cogumelo.
Obrigadão pelos esclarecimentos, Cipriano, é muito útil.
Abraço!

Cipriano Wiski disse...

mais uma dica. Converse com alguem... conte sua estoria para seus amigos, discuta sobre ela, vá tomar uma cerveja com alguem, tem certos momentos que ouvir a opinião dos outros é muito importante...
As vezes de quem vc menos espera pode vir as melhores idéias.

Valeu Marcelo por ver e blog e por comentar e principalemte por ajudar na construção do blog.

marcelo disse...

Cipriano, destravei!
Segui o seu conselho, cara. Hoje à tarde, assisti ao filme “Um homem e Uma mulher” do diretor Francês, Claude Lelouch, roteirizado por Pierre Uytterhoeven, e logo à noite, minha mente abriu.
Estou eufórico!
Saravá Cipriano. Sarava!

Julia Pierri disse...

Acabei de 'parir" um roteiro de documentário, e no meu caso, ele nasceu a partir da sinopse, mas foi um processo que confesso ainda não entendi exatamente como aconteceu - ou melhor, as etapas envolvidas. No final, foi extremamente satisfatório.
Parabéns pelo blog, continue firme aí, Cipriano.
Abraço